domingo, 3 de agosto de 2008

Corpo de Saudade

Duane Michals, na década de 60, foi um dos primeiros fotógrafos a trabalhar a seqüência fotográfica de forma expressiva, às vezes utilizando textos escritos, outras a narrativa fotográfica não-verbal. Em suas histórias curtas explora cenas casuais, bizarras ou espiritualistas. Em muitas das seqüências, as cenas desenvolvem-se com a câmara parada, sem mudança de enquadramento, dupla exposição e velocidades lentas do obturador. Michals vai influenciar uma dupla (Peeters/ Plissart) na elaboração de uma série de roman-photo. Droit de Regard , uma seqüência de ensaios fotográficos, sem nenhuma legenda ou texto escrito. Desta me sirvo.

F – Eu vou sentir saudade do seu corpo, tanta.

J – Eu não tenho mais onde me segurar.

F – Agora eu me lembro. Eu fiz amor com você.

J – Você faria de novo?

F – Eu faria.

J – Como seria?

F – Eu começaria lambendo os bicos dos seus seios. Devagar. Salgado, doce, agridoce, nenhum gosto definiria seu gosto. Seu gosto seria o seu gosto. Lamber o corpo da amada seria uma arte prévia, uma premonição, uma promessa. Eu já saberia como você gostaria de ser chupada nos mamilos. Muito antes de te conhecer eu saberia. Nosso encontro seria uma memória física. Eu daria leves mordidinhas, circundaria a forma deles com a língua. Paladar tátil. Gula. Você já seria minha antes de ser.

J - Eu sentira espasmos. Tremeria na cama como se uma onda elétrica me desse choques pelo corpo todo. Arrepios desinformariam meu cérebro. Eu estaria desorientada, descontrolada, com tesão. Eu nasci pra ser sua que em outras bocas eu era uma perdida.

F - Eu desceria. Minha boca me guiaria. Eu te tocaria com a boca, com a língua, a sua geografia portuguesa. Seu corpo, aquele corpo, seu corpo, o corpo de quem a gente ama com a boca, não pode estar sempre salivado. Seu corpo precisa comer, dormir, andar, fazer coisas, torturas que exige-se de um corpo. Minha boca te mataria de tanto te chupar. Eu te morderia e te aprisionaria em meus dentes. Seu corpo não sairia da minha boca.

J - Entre as minhas pernas, meu amor, você me chuparia. Chuparia, sugaria, lamberia, sentiria meu movimento: frêmitos, meu amor, espasmos. Eu diria: “Assim, chupa, assim, eu quero que você me coma.. Me chupa, me chupa, não deixa sobrar nada, amor, nada!”

F – Eu diria: “Goza na minha boca, Fernanda, goza seu mar na minha boca. Sua poesia líquida, seu trabalho úmido, seu suor sagrado. Baba em mim sua fé, sua angústia, seu desespero de viver, explode esse gozo na minha cara. Eu nasci pra te beber, pra te consumir feito fogo. Eu tô com sede, Fernanda, eu tô com sede, meu amor! Verte a sua água mais pura, seu jorro mais caudaloso, sua porra mais minha”.

J – Eu diria “Bebe, Joaquina, bebe. Eu te quero bêbada do meu gozo, do meu absinto útero, dos meus corrimentos, das minhas fontes. Eu tô gozando, meu amor, eu tô gozando na sua boca toda a esperança do meu coração, todas as mortes da minha vida, todas as vidas da minha morte”.

F - Meu Deus, eu morri de saudade de você!

J – Eu morri de saudade de você, meu amor!

(Cena da peça "Saudade"de Leo Lama.) .

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Janela da Alma

Hermeto Pascoal em foto do filme “Janela da Alma” de João Jardim (diretor de documentários como "Terra Brasil" e "Free Tibet") e Walter Carvalho (diretor de fotografia de "Abril Despedaçado”). Os dois são míopes: o primeiro usa óculos de 8 graus; Carvalho, 7,5.

"A idéia surgiu de uma vivência muito pessoal minha, eu achava que o fato de eu ter uma miopia muito grande tinha influenciado na minha personalidade e até na minha vida. Achava super interessante essa questão do ver ou não ver. Tudo depende do que a gente já viu antes, que determina a maneira como a gente interpreta o que está vendo. Eu achava muito estranho não se falar disso em cinema ou televisão, achava que dava para fazer alguma coisa emocionante." João Jardim.

“O olho é a janela da alma, o espelho do mundo”. Leonardo da Vinci.

“A maioria das imagens que vemos está fora do contexto e quer nos vender alguma coisa. Ter tudo em demasia significa não ter nada. Temos tanta imagem que não prestamos atenção em nada. As crianças querem ouvir estórias muito mais pelo conforto, do que pela estória em si. A estrutura da estória cria um sentido e a maior parte do tempo a vida não faz sentido. As estórias hoje em dias são excessivas, tudo é excessivo. Temos excesso de tudo, menos de tempo. As estórias simples não são mais enxergadas”. Win Wenders, cineasta.

“Eu preciso de enquadramento. Sem óculos eu via demais, prefiro ver enquadrado”. Win Wenders.

“O olhar deprimido e triste da minha mãe olhando para mim, isso me afetou. Anos depois, eu sofri um paradoxo após uma cirurgia com muito sucesso, meu olho foi corrigido e ninguém notou. Eu fiz um filme sobre a minha experiência na infância, sobre o jeito como minha mãe me olhava. O filme também foi um sucesso e acho que ninguém entendeu. Não era um filme sobre a deformidade facial, a verdadeira lesão não era perder um olho, era a lesão interna”. Marjut Rimminen, cineasta.

“O filme “Jacquot de Nantes” é sobre Jacques Demy, meu marido. Só tive essa visão tão intima dele porque eu tinha medo de perdê-lo. E ele morreu pouco tempo depois da filmagem. Sua pele, seus pelos, parece que não há distância entre o olho do observador e a pele. Só o amor poderia me fazer vê-lo tão perto. Só eu, olhando-o dessa forma, poderia filmá-lo assim. A alteração da visão se dá pelo sentimento e não pelo que é visto”. Agnès Varda, cineasta, sobre a cena de seu marido vestindo um suéter ao lado de Catherine Deneuve.

“Nunca estivemos tão próximos da alegoria da caverna de Platão do que hoje, somos bombardeados por imagens de todo tipo, sombras que cremos reais. Pessoas olhando em frente, vendo sombras, e acreditando que estão vendo a realidade. Perdidos de nós próprios e na relação com o mundo, não seremos nada”. José Saramago, escritor.

“Fiz-me a pergunta: e se fôssemos todos cegos? E no momento seguinte eu logo me respondi que estávamos mesmo todos cegos da razão. Tem explicação, mas não tem justificação”. Saramago.

“Pra conhecerdes as coisas, há que dar-lhes a volta, dar-lhes a volta toda”. Saramago, sobre os pontos de vista de uma coroa que adornava o interior de um teatro em que ia quando criança. Vista de um lado era majestosa, vista por dentro era suja e cheia de teias de aranha.

“O primitivo manda na minha alma. Não entra pelo olho. O olho vê, a lembrança revê. O poeta transfigura o real e isso é o mais importante...acho que eu não disse o que vocês queriam ouvir... rs, rs, rs,” Manoel de Barros, poeta.

"Eu pedi a Deus para Deus me deixar um tempo cego, cego aparente. Porque olhando é tanta coisa ruim que a gente vê, que atrapalha a visão certa, a visão das coisas que a gente quer fazer na vida". Hermeto Pascoal,
músico.

“A gente enxerga mais é com o terceiro olho. A gente escuta mais é com a nuca. Quando você quer prestar atenção em algo que está ouvindo você não aponta os ouvidos pra fonte, mas abaixa um pouco a cabeça”. Hermeto Pascoal.

“Nossa imaginação completa as palavras. Eu queria ler entre as imagens. A maioria dos filmes é emparedada, não dá espaço para sonhar”. Oliver Sacks, neurologista.

“Todas as nossas emoções codificam as imagens. Pode haver uma crise nervosa com a separação ente a visão e a emoção”. Oliver Sacks.

“Sou um narciso sem espelho, é muita sorte”. Eugen Bavcar, fotógrafo cego.

“Michelangelo não viu Moiséis, não o viu atravessar o Mar Vermelho, mas leu sobre ele, por isto pode pintá-lo. A imagem está nas palavras. Não vejo imagens, faço imagens”. Eugen Bavcar.

“Ele fotografa o lado dentro. Quando eu era criança, minha mãe me chamava de minha corujinha”. Hanna Schygulla, atriz, ao ser fotografada por Bavacar com uma coruja no ombro.

“Você nunca se descobre pensando fora de foco. Eu não me penso fora de foco. O mundo é que está ou eu que estaria? Nunca pude olhar muito de perto no espelho. Quando tentava, batia no espelho”. Carmella Gross.

“Descobri com óculos que as árvores eram múltiplas e cheias de folhas e não uma massa”. Antonio Cícero, poeta e filósofo.

“O olhar na janela é outro olho na janela e outro olho na janela até o infinito. Talvez nunca seja na verdade a própria alma”. Antonio Cícero.

“Moças na cama me pediam para tirar os óculos. Eu as achava umas degeneradas”. João Ubaldo Ribeiro, escritor.

"Ninguém me entende, ninguém me escuta, ninguém me enxerga!". Repetem os que desesperadamente sofrem pela falta de percepção dos outros. Aqueles que não conseguem se mostrar e culpam os outros por não conseguirem os ver. Estes são os mais cegos, pois não se enxergam sendo enxergados, portanto não se mostram por não se acharem sendo vistos. Esquecendo que também não conseguem ver os outros, já que tudo é espelho distorcido pela própria visão. Foi isto que se quis dizer quando se disse “não cometerás adultério”, ou seja, não adulterará a realidade. O psicologismo é a cegueira da inteligência, da capacidade de ler a realidade, portanto de enxergar a imagem que se projeta no mundo. E é isto que vemos: nós em tudo. Refletir é se espelhar em si. Leo Lama, escritor, cego, que não disse nada no documentário.

Hanna e a Coruja, em foto de Bavcar.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Doce da Grana

Foto de campanha publicitária da marca dolce&gabbana. "Gang Rape".

O glamour abusivo de cada outdoor que da minha mente eu amputo, volta na memória da cidade que, fingida de limpa, sabe: pra cada putaria há um viaduto. A grife vende de novo o antigo produto: todas as práticas sexuais são estupros. Todas as palavras, todos os relacionamentos, todos os atos são corruptos. As bocetas queimam nos charutos. Todos os amores são putos. Rituais bizarros que duram poucos minutos. E no futuro do pretérito toda atrocidade seria culto: a nenhum cú seria concedido indulto. Nenhum corpo prestaria se não estivesse enxuto. Ninguém mais saberia o que é insulto. A nenhuma violência seria prestado o luto.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O Comunismo















Espanha,1936.
Comunistas fuzilando a estátua do Sagrado Coração de Jesus. Cadáver de freira retirada de túmulo profanado.

"Morre, estátua maldita!", "Confessa, freira desgraçada!".

O diabo toma partido.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Dois

Foto de autor desconhecido.

Partido, nosso coração está sempre partindo, repartindo nossa falta entre aqui e lá.Sem conseguir tomar partido, sem saber ao certo porque partimos, fomos indo pra sentir vontade de volver. A saudade borda nosso ar estrangeiro que já era assim antes de sermos tão sem espaço. Por amor, por trabalho, por desespero, por esperança é que estamos sempre indo ao avesso. Somos tão estranhas almas.

E se é o próprio diabo que nos une em perfeita subversão? Criaturas partidas escutam até a voz do oco. Que diferença faz a escolha que fazemos quando estamos fragmentados e inseguros?

terça-feira, 3 de junho de 2008

Repouso

Foto de Edu Campos. Que traz seu lugar em seu nome.

O tempo, o espaço e toda a metafísica, o vento, o gorjear dos pássaros, o suspirar do mato, a obra das formigas. Tudo está contido na parada do boi. Olha lá dentro e vê que a tristeza é só o largo de tudo em ruminar sem movimento. Assim quase sem foco, pesada criatura se mistura em tudo e só ali. Moscas sem por que, tontas de si, param: ir? Fazer? Agir? O boi abarca tudo em sua forma parada entre um instante e outro no eterno aberto entre as contingências. Paro. As coisas me olham e olham por mim.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Blume

Foto de José João Name.

A morte é uma flor. Paul Celan.